Prestem atenção na letra, não é muito difícil. Mas é o que toda mãe e todo pai deve dizer para seu filho, mais ou menos assim:
Não importa onde você esteja, se fizer o certo gostará de onde está.
E você sempre pode voltar para casa.
Olhe bem fundo e verá que seu lar está dentro de você.
Final do anos setenta, eu era uma criança e minha irmã adolescente,
recém chegada de um ano de intercâmbio nos Estados Unidos, trouxe vários
discos. Alguns quase furaram de tanto tocar na vitrola lá de casa.
Já disse aqui que minha mãe tinha uma bela coleção de discos em vinil, os quais sempre se revezavam na vitrola.
Hoje reparto com vocês mais uma lembrança da infância: Sergio Endrigo (15 de junho, 1933 - 7 de setembro, 2005), cantor e compositor italiano. Nascido em Pula (Ístria) na atual Croácia, venceu como compositor o Festival de Sanremo de 1968 com a canção "Canzone per te", na voz de Roberto Carlos. Nesse mesmo ano, representou a Itália no Festival Eurovisão da Canção com a canção "Marianne".
Espero que gostem de Canzone Per Te e Io Che Amo Solo Te. AB
Como faço todo domingo, assiti ao Manhattan Connection. Adoro a seleção musical que acompanha as dicas de Nova York. Ontem foi a bela música imortalizada por Tina Turner, Let's stay together, mas na voz de seu criador Al Green.
Achei estas duas versões: a primeira de 1972, a segunda de 2010.
Espero que gostem!
A letra é simples, mas diz muito sobre a relação entre duas pessoas.
Let's Stay Together
I'm, I'm so in love with you
Whatever you want to do
It's alright with me
'Cause you make me feel so brand new
And I want to spend my life with you
Ain't the same since, baby, since we've been together
Ooh, loving you forever
Is what I need
Let me be the one you come running to
I'll never be untrue
Ooh, baby, let's, let's stay together
Loving you wheather, wheather times are good or bad, and I'm happy or sad
Wheather times are good or bad, and I'm happy or sad
Why somebody, why people want break up?
Oh, turn around and make up
I just can't see
You'd never do that to me (Would you, baby?)
So being around you is all I see
Is what I want us to
Let's, we ought to stay together
Loving you wheather, wheather times are good or bad, and I'm happy or sad
Let's, let's stay together
Loving you wheather, wheather times are good or bad, happy or sad.
Diogo Nogueira tem a voz muito parecida com a do pai, João Nogueira, cantor que fez grande sucesso nos anos 70/80. Esta música, Me leva, foi gravada originalmente por Agepê, outro cantor daquela época.
Espero que gostem! AB
Alguns devem conhecer ou ter ouvido falar de John Coltrane (23/09/1926 - 17/07/1967). Tenho que confessar que não me lembro quando tive o primeiro contato com sua música. Mas gostei de cara. Só tenho um CD dele, na verdade uma compilação de suas melhores gravações de músicas de amor.
A música que mais gosto é "You're a weaver of dreams", algo como "O tecedor de sonhos". Achei estas duas versões, uma com ele e outra com Esperanza Spalding.
A WEAVER OF DREAMS
(Victor Young /
Jack Elliott)
Nat King Cole -
1952
Johnny Mathis -
1963
Carmen McRae - 1977
Also recorded by:
Kris Adams; Monty
Alexander; Bob Brookmeyer; Deborah Brown;
Freddie Hubbard;
Lee Konitz; Jan Lundgren Trio; Danny Moss;
Kenny Burrell; John
Coltrane; Eddie Daniels; Billy Eckstine;
Bobbe Norris; Oscar
Peterson: ............. and many others.
Lembram-se quando falei aqui que minha mãe tinha uma coleção incrível de LP?
Hoje lembrei de um disco que ela gostava e tocava muito na vitrola: The Platters.
Os mais jovens com certeza nunca ouviram falar.
Boa música e belas vozes não devem ser esquecidas jamais.
Aumentem o som e apertem o play!
Hoje a França comemora a Queda da Bastilha, que foi evento central da Revolução Francesa, ocorrido em 14 de julho de 1789.
Para marcar a data, reproduzo o incrível post da Penélope do blog Sob o céu de Paris.
As pessoas, sempre surpresas com o meu gosto pela chanson française, geralmente me pedem para citar a música mais conhecida da França, e eu sempre respondo o mesmo: a Marseillaise.
É raro encontrar uma pessoa adulta que nunca ouviu o hino nacional
francês e, muitas vezes, mesmo sem saber o nome, as pessoas reconhecem
imediatamente quando eu cantarolo a melodia.
Beatles
Certamente que a culpa pela popularidade desta canção não é inteiramente
dos Beatles, mas o hino francês é, possivelmente, o hino mais conhecido
do mundo, e a aparição dele na introdução de uma das músicas mais
famosas de uma das bandas mais conhecidas da história, ajudou a
disseminar a Marseillaise por aí. Li, aqui neste artigo super interessante, que o responsável por inserir a Marseillaise na introdução de All you need is love foi o famoso quinto Beatle, o produtor George Martin.
Aparentemente, a escolha foi meio ao acaso (se é que isso existe) e ele decidiu misturar a Marseillaise com
uma melodia do Bach (alemão), mais "In the mood", de Glenn Miller
(americano) e "Greensleeves", música folclórica inglesa supostamente
composta por Henrique VIII, para criar a textura do pano de fundo de All you need is love.
É claro que esta mistura de melodias de diferentes partes do planeta em
uma canção que queria cantar a paz mundial não foi tão aleatória assim
e, mesmo que inconscientemente, Martin estava colocando juntas as
músicas que ele queria que representasse esta idéia de paz e amor.
Gainsbourg
Reza a lenda que, em 1979, Gainsbourg estava folheando a enciclopédia e caiu no artigo que falava da Marseillaise.
Curioso, Serge decidiu explorar o texto e logo percebeu que, na
transcrição do hino, lá pelo décimo verso, a enciclopédia sintetizou a
letra imensa com um simples "aux armes et caetera".
Eu prefiro confiar mais na minha própria interpretação e acreditar que
Gainsbourg, sempre muito rebelde e provavelmente um pouco cansado de seu
próprio país, decidiu desafiar a ordem e tocar na coisa que ele sabia
que seria a mais intocável: o hino nacional. O modo desdenhoso com que
canta, o tom de deboche, e as imagens do vídeo oficial, me fazem
acreditar que Gainsbourg estava tirando um bom sarro com aquela letra
sangrenta e absurda - pelo menos para os dias de hoje - que é a da Marseillaise. E cantou "aux armes et caetera" como quem diz "às armas, e toda aquela bobajada".
Obviamente, uma versão reggae do hino nacional não iria agradar a gregos
e troianos mas, embora Gainsbourg tenha sido chamado de todos os nomes
após o lançamento da canção, os opositores não conseguiram impedir que o
disco fosse um sucesso absoluto e se transformasse no primeiro Disco de
Ouro da carreira do compositor.
Filmes
Outra grande aparição da Marseillaise é no clássico hollywoodiano Casablanca.
A cena em que o personagem de Victor Laszlo manda tocar o hino francês
para calar as vozes dos soldados alemães é emocionante e faz arrepiar
cada pelo do meu corpo sempre que revejo. A força rebelde que o hino
francês representa aliado às expressões tristes dos atores representando
os expatriados nos transportam de maneira muito forte para o horror da
Segunda Guerra.
Recentemente, o hino francês também foi incluído na cinebiografia de
Édith Piaf em uma cena que ela, ainda menina, o canta na rua para
conseguir dinheiro.
Django Reinhardt
E fecho este texto de comemoração à Queda da Bastilha com uma das minhas interpretações favoritas da Marseillaise, tocada no violão pelo gênio Django Reinhardt.
Todo mundo sabe que Hollywood adora uma refilmagem.
1937
1954
1976
A star is born (Nasce uma estrela) já vai ganhar sua quarta versão, com direção do premiado Clint Eastwood e com Beyoncé no papel principal. Assisti ao filme de 1976, com Barbra Streisand e Kris Kristofferson, cuja música tema é uma das mais belas canções que conheço.
John é um astro do rock
que se envolve romanticamente com Esther, uma cantora iniciante. Ele a
ajuda a subir na carreira mas, a medida que ela vai se tornando também
uma estrela, o cantor começa seu rápido declínio em função do abuso de álcool e drogas.
Ela tenta retribuir a ajuda, mas o cantor a rechaça, prejudicando
definitivamente o relacionamento, mesmo estando os dois apaixonados.
Todas as versões foram indicadas ao Oscar e venceram em mais de uma categoria. Vamos aguardar o novo filme, previsto para 2013, e ainda sem ator escolhido para fazer par com Beyoncé.
Escutem Evergreen mais uma vez ou tenham o prazer de conhecê-la.
Primeiro, em uma cena do filme de 1976:
Todo domingo assisto ao ótimo programa Manhattan Connection, do canal por assinatura GloboNews. Em alguns momentos do programa eles mostram lugares a ir e o que fazer em Nova York, geralmente embalados por excelentes músicas. No último domingo, uma música em especial me chamou a atenção pela marcante voz da intérprete. Aguardei a informação na tela e fui procurar quem é ela: seu nome éIndia Ariee a música é Back to the middle. Dá uma olhada:
No site dela dá para escutar algumas músicas do novo disco. Clica aqui, vai lá e aperta no play.
Dá vontade de dançar!
AB
"Alguém já disse que saudade não é quando a gente sente falta de alguém,
mas quando sente a sua presença", disse Marisa Monte ao fazer uma
sincera homenagem à Cassia Eller, na estreia de seu novo show, na última
quinta-feira em São Paulo.
Pois bem: por quase duas horas, ali mesmo no palco, a cantora fez então
com que sua plateia sentisse muita saudade dela, na noite que anunciava
com chuva e vento o inverno na cidade.
Que prazer ser aquecido por sua voz. Em menos de cinco minutos ali,
Marisa mostrou mais uma vez que sua missão ao se apresentar ao vivo
ultrapassa a simples reprodução de faixas de um disco de lançamento.
O que ela quer (e consegue) é elevar o patamar de um espetáculo,
oferecer uma outra maneira de as pessoas (por uma sinestesia espontânea)
verem e ouvirem suas canções, transformar um show em experiência
elevada.
Joel Silva/Folhapress
A cantora Marisa Monte na estreia do show
Olhando só a ficha técnica do show "Verdade uma Ilusão", um olhar mais
cínico pode até achar a proposta arrogante para uma turnê que quer ser
popular: convidar artistas plásticos para compor um visual para cada
música?
Mas quando as imagens começam a se envolver com a música, quando olhos e
ouvidos já conversam confortavelmente, e você nem pensa em pedir
resgate pelo sequestro de seus sentidos, qualquer ideia de pretensão se
desfaz.
Marisa Monte consegue isso antes mesmo de terminar a segunda música, "O que Você Quer Saber de Verdade".
Orquestrado pelo diretor de arte Batman Zavarese, o visual do show é
irresistível --e quando, pela criação de Cao Guimarães e Rivane
Neuenschwander, uma imensa bolha de sabão desafia a atmosfera ao longo
de "Ilusión" (um clássico desde a parceria com Julieta Venegas), sons e
formas, na sua cabeça, são de fato uma coisa só, como se assim tivessem
nascido e existido para sempre.
Difícil falar qual desses casamentos é o mais acertado. Os "4.000
Disparos" de Jonathas Andrade para "Não Vá Embora"? Os "Manuscritos" de
Mana Bernardes para "E.C.T." (quando Marisa faz então seu tributo à
Cássia)? O "Dream Sequence I" de Janaína Tschäpe em "Depois"?
Eu fico, talvez, com a estupenda imagem de duas pequenas árvores à
deriva num barquinho, em "Ainda Bem", de Thiago Rocha Pitta. Por que
"talvez"?
Porque não tenho muita certeza do que senti na noite de quinta. Marisa
--acompanhada por músicos selecionados a dedo da Nação Zumbi, além de um
superior quarteto de cordas-- mais uma vez confunde nossas emoções.
Os felizes no amor querem se sentir abandonados --apenas para cantar
"Depois". Os corações solitários desejam estar com alguém para "Ainda
Bem" virar verdade. E eu mesmo, que um dia escrevi, aqui mesmo nesta
"Ilustrada", lá no idos dos anos 90, que queria "morar no país que
Marisa Monte canta", já não estou mais seguro de onde desejo realmente
viver. Mas sei que é desse lugar, de onde sai sua voz e seu brilho, que
eu quero sempre sentir saudade.
ZECA CAMARGO é jornalista e apresentador do "Fantástico" (TV Globo)
"VERDADE UMA ILUSÃO" QUANDO: em temporada até 15/7, no HSBC Brasil QUANTO: de R$ 120 a R$ 320 CLASSIFICAÇÃO: 14 anos AVALIAÇÃO: ótimo
Nota da AB:
Já tive o prazer de assistir a dois shows de Marisa Monte. Um no início de sua carreira, em Natal, no Centro de Convenções, e outro no Rio de Janeiro, no que hoje é chamado Citibank Hall (a casa de espetáculos já mudou de nome várias vezes). Ambos maravilhosos. Gostaria muito de poder ver o novo show. Por enquanto a agenda oficial só prevê shows em SP e RJ.
Karl Lagerfeld, estilista alemão da Maison Chanel, afirma no início do clipe: Saint-Tropez é o paraíso! Prestem atenção nas belas imagens da cidade, que fica no sul da França, na região conhecida como Côte d'Azur (Costa Azul). É tudo isso e mais alguma coisa!
Eu adoro música e, assim como para os filmes, tenho gosto eclético. Minha mãe tinha uma coleção enorme de LP (para os mais novos, LP é long play, aqueles discos de vinil com gravações em ambos lados). Na casa dela sempre tinha música tocando, ou na vitrola ou no rádio. Cresci escutando música brasileira e americana.
O American Songbook é o conjunto de canções cujos autores são considerados os melhores do Século XX. Uma música universal, atemporal, e que está no inconsciente coletivo. Essas obras foram tocadas nos anos 30, 40, 50, e até hoje são lembradas e ouvidas. Cole Porter e os irmãos George e Ira Gershwin são os mais conhecidos autores daquele período. As vozes de Tony Bennett, Frank Sinatra, Bing Crosby e Nat King Cole, só para citar alguns, imortalizaram algumas delas. Elvis Presley também gravou algumas delas mais no fim de sua brilhante carreira. Mais recentemente, Rod Stewart, Diana Krall, Michael Bublé e Steve Tyrrell fizeram muito sucesso com suas interpretações.
Achei este cantor brasileiro Ian Calamaro e suas gravações do American Songbook.
Esta outra música, My Way, não faz parte do American Songbook, por ser originalmente francesa, composta em 1967. No ano seguinte ganhou sua versão em inglês por Paul Anka e foi imortalizada por Frank Sinatra. A incluí aqui por ser uma das minhas favoritas.
"Eu sou pequeno perto de Jobim", diz Henri Salvador ; confira entrevista
LENEIDE DUARTE-PLONColaboração para a Folha, em Paris 16/03/2007
Henri
Salvador, 89, foi anunciado neste ano em um especial de TV sobre um
século da canção francesa como o "inventor da bossa nova brasileira". No
palco, disse que sua música "Dans Mon Île" (Na Minha Ilha) "inspirou
Tom Jobim a criar a bossa nova" e cantou "Eu Sei que Vou te Amar", de
Tom e Vinicius, em versão francesa de Georges Moustaki. Ninguém informou
que a canção nem é francesa.
Meses atrás, o jornal "Le Monde"
questionava: "Henri Salvador foi, como ele diz, o inventor da bossa nova
com a canção 'Dans Mon Île'?". Num programa de rádio, atribuiu-se a
ele a criação da bossa nova. Não é de admirar que na Wikipédia
(enciclopédia virtual em que qualquer pessoa pode escrever) a informação
persista. Ainda que no condicional.
Seu amigo Moustaki, que traduziu "Águas de Março" para o francês, com Tom Jobim, diz à Folha: "Acho que Salvador acredita sinceramente nisso, mas não estou de acordo".
Ao lançar o disco "Révérence", gravado no Rio, Salvador recebe a Folha
em seu apartamento na Place Vendôme, em Paris. Estende a mão e pergunta
"Como vai você?" para mostrar que ainda fala a língua que aprendeu no
Brasil, em 1940. Mas dá a entrevista em francês, reclamando do cansaço
da batalha contra um vírus, que o levou ao hospital. O bom humor volta
ao falar do Brasil.
Salvador ri de maneira escancarada. Suas
gargalhadas ecoam no apartamento. Na entrevista, o velho "crooner"
fascinado por músicos brasileiros demonstra espanto ao saber que a
batida da bossa nova foi criada pelo violão de João Gilberto ("Verdade?
Não sabia.") e diz que é "exagero" chamá-lo de "inventor" do gênero.
Confira a seguir a íntegra da entrevista:
Folha - Por que você gravou o disco "Révérence" no Rio?
Henri Salvador
- Gravei no Brasil por causa de Morelembaum. Fui ver Caetano Veloso em
Paris, e Morelembaum tocava com ele. Quando ouvi os arranjos, disse a
mim mesmo: é esse cara que vai fazer meu próximo disco. Fui vê-lo depois
no "New Morning" em Paris e lhe pedi que fizesse os arranjos. Ele
disse, "Salvador, com muito prazer, eu conheço você". Para facilitar, eu
lhe disse que eu poderia ir gravar no Brasil, assim ele poderia
trabalhar em português com os músicos. Ele ficou encantado. Os músicos
eram do grupo de Jobim.
Folha - Em que você pensou quando escolheu o título?
Henri Salvador- É a última vez que vou me apresentar em público no palco. Sou um velho. Então, faço a reverência e saio.
Folha - Você começou uma turnê que vai incluir show em Monte Carlo, onde festeja seus 90 anos. Aposentadoria nem pensar?
Henri Salvador
- Faço primeiro Monte Carlo, depois a Salle Pleyel e depois o Palais
des Congrès. Termino a minha despedida na Ópera de Paris. Detesto a
palavra aposentadoria, "retraite" em francês, que quer dizer se retirar.
É uma abdicação.
Folha - Então você não se aposenta completamente.
Henri Salvador
- Não deixo de gravar meus discos, mas paro de me apresentar ao vivo
porque é cansativo e não quero dar a imagem de um velho no palco. Será a
última vez que vão me ver no palco. Sou um homem idoso.
Folha - Que compositores brasileiros você canta no disco?
Henri Salvador
- Há apenas uma canção de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes,
"Eu Sei que Vou te Amar", na versão de Georges Moustaki. As outras são
minhas.
Folha - Você disse à imprensa brasileira: "O
Brasil está ligado à minha vida e tem a melhor música do mundo". Qual
sua relação com a música brasileira?
Henri Salvador
- Para mim, é a melhor música não somente porque tem muitos talentos
mas porque eles são vanguardistas, se arriscam musicalmente e
harmonicamente. Jobim foi muito, muito longe e a maior parte dos
compositores são surpreendentes, fazem grandes achados musicais. O
maior, porque é o maior, eu o chamo de Deus, é Jobim. Ele é sempre
surpreendente. É pura pesquisa musical.
Folha - Qual a importância que a música brasileira teve em sua carreira?
Henri Salvador - Foi muito importante. Para compor, por exemplo. Componho mais facilmente no ritmo da bossa nova, ele inspira melodias.
Folha - E qual a importância do jazz na sua vida?
Henri Salvador
- O jazz foi importante no início. Eu admirava os grandes como Count
Basie e Duke Ellington. Havia um compositor americano que eu adorava,
Cole Porter. Para mim, era um melodista maravilhoso. O jazz foi muito
importante no início, depois mergulhei na música brasileira, que é
inovadora. No Brasil, há sempre alguém que chega e faz coisas novas. É
um país muito rico. E existem músicos que se aproximam de Chopin. Tem um
pianista que me deixou abismado num disco.
Folha - Quem é?
Henri Salvador - Não lembro o nome dele.
Folha - Que cantores marcaram seu estilo, suas interpretações?
Henri Salvador
- Minhas composições são uma mistura de tudo, de jazz, de bossa nova e
da canção francesa também. Meu ídolo no "music hall" era Maurice
Chevalier. Ele pegava uma canção sem importância e fazia uma obra-prima.
Tecnicamente, eu me inspirei em Frank Sinatra e Nat King Cole para a
respiração, a dicção e a escolha das canções. Eles estavam na vanguarda.
Foram os melhores cantores dos melhores compositores, com as melhores
orquestras. Sinatra dizia que, quando se canta, é melhor cantar uma
canção boa que uma ruim; uma canção ruim é ruim para toda a eternidade.
Folha
- No especial de televisão para lembrar cem anos de canção francesa,
você só cantou uma música, e foi "Eu Sei que Vou te Amar", de Tom Jobim e
Vinicius de Moraes, em versão de Georges Moustaki. Por que você
escolheu esta canção num especial sobre a canção francesa?
Henri Salvador
- Foi uma feliz coincidência. Quando eu fui ao Brasil, descobri essa
canção, que eu não conhecia. Perguntei a Moustaki e ele me disse que ela
é um enorme sucesso no Brasil. É uma bela composição que tem uma
lógica musical muito linda.
Folha - E foi você quem a escolheu para a festa da canção francesa?
Henri Salvador
- Sim. Eu escutei um disco de Jobim maravilhoso, super de vanguarda,
com uma grande orquestra, quase sinfônico, formidável. Mas eu não sabia
que ele tinha ido tão longe. Era realmente um maravilhoso compositor,
lamento não tê-lo conhecido. Eu moro perto do Olympia e eles vieram
aqui, Jobim, Vinicius e um grupo. E eu não pude ir.
Folha - Você não conheceu Tom nem Vinicius?
Henri Salvador - Não.
Folha - Mas você conhece João Gilberto?
Henri Salvador - Sim, fui vê-lo em Paris.
Folha - Você conhece também Caetano Veloso, que canta "Dans Mon Île" sempre que vem a Paris.
Henri Salvador - Sim, foi ele quem quis a canção "Eu Sei que Vou te Amar" no meu novo disco.
Folha
- Numa longa matéria sobre a bossa nova, "Bossa nova, une passion
française", o "Le Monde" escreveu: "Henri Salvador foi, como ele diz, o
inventor da bossa nova com sua canção 'Dans Mon Île'? Tom Jobim teria
tido a idéia de desacelerar o 'tempo' do samba depois de ter visto o
filme italiano para o qual foi composto este bolero". O que você pensa
dessa história e como você explica a batida da guitarra de João Gilberto
e a harmonia ultra-sofisticada da bossa-nova, que Tom Jobim atribuía a
uma mistura do samba-canção com o jazz?
Henri Salvador
- Foi um grande músico brasileiro, cujo nome não lembro, quem me disse:
"Você sabe que você está na origem da bossa nova?" Eu disse: "Não é
possível". Ele me disse: "O Tom Jobim ouviu sua música 'Dans Mon Île'
num filme italiano e disse: "É isso que tenho que fazer, desacelerar o
tempo do samba".
Folha - Não seria um exagero dizer que você é o "inventor" da bossa nova?
Henri Salvador - Não sou o inventor. Foi Jobim quem inventou a bossa nova.
Folha
- No início, foi João Gilberto quem inventou a batida do violão e uma
nova maneira de cantar que foi batizada de bossa nova. Ele gravou um
disco com Elizeth Cardoso e Tom Jobim, no qual tocava violão em duas
faixas, de maneira totalmente nova.
Henri Salvador - Verdade? Não sabia.
Folha - A imprensa francesa repete muito essa história que atribui a você a invenção da bossa nova. Isso o incomoda?
Henri Salvador
- Eles estão errados. Não posso me atribuir esse fato, não fui eu. Não
gosto que digam que sou o inventor da bossa nova. Não sou capaz, sou
apenas um pequeno compositor comparado a Jobim. É um exagero, sou um
pequeno melodista da canção francesa. Jobim é um gigante. Fiquei
contente quando fui ao Brasil no ano passado, ao ver que o aeroporto do
Rio se chama Jobim. Nunca isso aconteceria na França... Mas tive um
choque ao ouvir um saxofonista que tocava mas era uma ... merda. O
aeroporto se chama Jobim e não se põe alguém que saiba tocar bem para
executar as belas músicas de Jobim. Isso me deixou triste.
Folha - Você vai fazer uma turnê no Brasil para promover o disco?
Henri Salvador
- Vamos fazer. Morelembaum quer que eu faça com ele. Mas sou uma coisa
velha. Mas o público brasileiro é muito caloroso. Preciso preparar
algumas frases em português engraçadas.
Folha - Você foi
ao Brasil pela primeira vez em 1940 para cantar com a orquestra de Ray
Ventura. Quais suas lembranças dessa época?
Henri Salvador
- Eu andei por todo lado, Minas Gerais, Salvador. Cantei no Cassino da
Urca, no Quitandinha, em Niterói. Mas o que me agrada no Brasil... É
tudo. Os brasileiros são calorosos, recebem bem e amam o francês. Eles
adoram a França, isso me surpreendeu. Todo mundo fazia um esforço para
dizer algumas palavras em francês. Eu me dou bem com o Brasil porque sou
da Guyana e por isso me sinto muito próximo. Há muito calor humano.
Vejam também "Eu sei que vou te amar" com Henri Salvador.
Atualização: foi lançado um disco póstumo agora em junho/2012, na França.