Hoje fui assistir a palestra da estilista Diane von Furstenberg
(DVF, wrap dress, presidente do CFDA, musa…), que foi à FAAP contar sua
rica trajetória pessoal e profissional. Além disso, tive a oportunidade
de subir no palco, ao lado de Ale Farah, Camila Coutinho e Mica Rocha,
para fazer duas perguntas para ela.
Bom, Diane é uma lição de vida ambulante (tem um resuminho da palestra aqui no site da Vogue)
e frisou o tempo todo que sua missão sempre foi ajudar as mulheres a se
sentirem poderosas, que sem autoconfiança não vamos a lugar nenhum e
que toda mulher deve ser independente. Além dos famosos vestidos
estampados, Diane – descobri enquanto pesquisava para bolar minhas
perguntas – já lançou um livro com dicas de beleza, um perfume que foi
hit (Tatiana) e uma linha de cosméticos. Como se tornar uma mulher mais atraente, confiante e sensual, by DVF. Já comprei o meu exemplar “vintage” na Amazon, aqui!
Interessante não? Isso foi nos anos 70, e desde então, ela não
lançava nada de beleza até seu novo perfume, Diane, que ainda não chegou
ao Brasil.
Mas voltando à lição de vida. Diane é uma mulher vivida (já foi até
princesa) e tem 64 anos. E não tem NENHUMA intenção de esconder isso do
mundo. Ela nunca fez plástica, nem injeções de nenhum tipo. Foi pensando
nisso que fiz uma das minhas perguntas. Quis saber o que ela achava
desse desejo das mulheres hoje de estarem sempre jovens, do excesso de
procedimentos estéticos, do pânico de envelhecer e do fenômeno das
mulheres que têm todas a mesma cara… e como ela lidava com essa questão.
Queria dividir com vocês a resposta dela (mais ou menos como lembro,
já que não deu pra anotar), que me inspirou muito, e a frase final, que
virou meu novo mantra: “Minhas marcas de expressão são minha vida, e fico feliz de olhar o
passado e ver que vivi e me diverti. Por que eu iria querer apagar essas
marcas? Sei que muitas pessoas olham para mim e pensam ‘ela deveria
fazer alguma coisa nesse rosto!’, mas não ligo. Outro dia recebi lindas
rosas, que deixei na minha mesa. Uma semana depois, elas já não estavam
mais tão lindas, tinham manchas marrons e estavam caídas. Fiquei olhando
para elas um tempo e cheguei a conclusão que… mesmo assim, elas ainda
eram lindas rosas! E é isso. Prefiro ser uma rosa velha que uma rosa de
plástico”. Prefiro ser uma rosa velha que uma rosa de plástico! Gente!! Ela foi
aplaudida… e ainda completou: “Nunca tinha dito essa frase, mas vou
repetir muito!” Lição, não?
Diane em vários momentos…
… e uma foto-homenagem, da rosa que atualmente habita minha mesa na redação!
*dedico esse post à minha mãe, Suzana, a maior defensora ferrenha da beleza natural que conheço.
Nota da AB: Não sei se vocês já tinham visto este post. Eu só vi hoje e achei a frase de DVF o máximo!
Obcecado pela pontualidade, o ator teve de atrasar uma
apresentação em cinco minutos porque os convidados demoraram para ocupar
seus lugares. Mas antes pediu desculpas aos que chegaram no horário
Grande
nome das artes cênicas no país, o ator Antônio Fagundes é conhecido por
outro traço de sua personalidade, além do talento inquestionável. Ele é
obcecado pela pontualidade. Suas apresentações começam exatamente no
horário marcado e quem chega atrasado não entra, sem exceção ou
choramingos. Justamente por isso, causou estranheza um episódio ocorrido
na sessão para convidados da peça Vermelho no Sesc Ginástico no último
dia 9. Às 21 horas em ponto, horário marcado para o espetáculo, um
produtor veio ao palco, pediu desculpas "em nome do Antônio Fagundes" e
anunciou que o início da exibição atrasaria cinco minutos. Desde as
20h50 daquela noite, esse mesmo produtor se desesperava no saguão do
teatro, tentando convencer figurões e celebridades a deixar de lado o
bate-papo e as entrevistas para ocupar seus lugares na plateia. Não foi
atendido. Às 21h05, as cortinas foram abertas, depois que os ilustres
convidados já estavam acomodados.
A guerra contra o relógio é
uma característica arraigada no caráter carioca, e a maioria das pessoas
trata o desrespeito aos horários com a mais absoluta naturalidade. Nos
consultórios médicos e dentários, o atendimento atrasa em média quarenta
minutos. Shows e cerimônias de casamento começam meia hora depois da
hora marcada. Espetáculos teatrais, quinze minutos. "Acho um desrespeito
deixar as pessoas esperando. Decidi ser pontualíssimo e ganhei fama de
chato", disse o ator em entrevista ao repórter Rafael Teixeira, de VEJA
RIO. Com grande parte do público ainda do lado de fora, o ator acabou
fazendo uma rara concessão. Isso não se repetiu mais e não deve se
repetir nas próximas apresentações. Bravo, Fagundes!
Infelizmente este triste e desrespeitoso hábito não se limita aos cariocas. Isto acontece no Brasil todo. Eu abomino o atraso sistemático que faz parte da vida de muitas pessoas. Semana passada meu filho foi a um show de humor no Teatro Riachuelo. Disse que o artista começou o espetáculo, já com o atraso "de praxe" de quinze minutos, com a platéia quase vazia e terminou a apresentação com a sala lotada. Será que as pessoas tem relógios e não sabem usá-los? Seriam apenas para enfeite?
Alguns devem conhecer ou ter ouvido falar de John Coltrane (23/09/1926 - 17/07/1967). Tenho que confessar que não me lembro quando tive o primeiro contato com sua música. Mas gostei de cara. Só tenho um CD dele, na verdade uma compilação de suas melhores gravações de músicas de amor.
A música que mais gosto é "You're a weaver of dreams", algo como "O tecedor de sonhos". Achei estas duas versões, uma com ele e outra com Esperanza Spalding.
A WEAVER OF DREAMS
(Victor Young /
Jack Elliott)
Nat King Cole -
1952
Johnny Mathis -
1963
Carmen McRae - 1977
Also recorded by:
Kris Adams; Monty
Alexander; Bob Brookmeyer; Deborah Brown;
Freddie Hubbard;
Lee Konitz; Jan Lundgren Trio; Danny Moss;
Kenny Burrell; John
Coltrane; Eddie Daniels; Billy Eckstine;
Bobbe Norris; Oscar
Peterson: ............. and many others.
Um pouco de cultura geral. Alguém pode dizer que é futilidade, mas faz parte do glossário da indústria da moda. Quando vocês ouvirem um vendedor falar em azul Klein, vão saber a origem do nome. Surpresa para quem pensava que esta cor se chama azul BIC (marca de caneta esferográfica).
Do site40Forever.
AB
Yves Klein, um dos artistas mais influentes e conhecido do século 20,
praticamente reinventou a arte contemporânea na década de 50 por seu
fascínio com o imaterial.
Um apaixonado pelo céu e seus tons, criou seu próprio pigmento azul (chamado de “Klein Blue”).
Klein abriu o caminho para os movimentos da arte conceitual,
minimalista, e os movimentos performáticos que se seguiram. Ele fez
pinturas monocromáticas e esculturas, construiu uma galeria de
exposições a partir do nada, utilizandos corpos nus como pincéis para
aplicar tinta ao papel, deixando o vento e a chuva darem forma em suas
telas.
Suas obras fazem parte de acervos permanentes de importantes museus ao
redor do mundo, estando presente também em renomadas coleções
particulares.
Nascido em Nice na França, em 28 de abril de 1928, o pintor e
escultor francês Yves Klein morreu em Paris em 06 de junho de 1962.
Vamos dar uma olhada em suas pinturas e esculturas, “monocromáticos Klein Blue”! AC
"GREAT BLUE CANNIBALISM" (1960)
"ANTHROPOMETRY PRINCESS HELENA" (1960)
Yves Klein e uma modelo durante performance de “Anthropometry of the Blue Epoch”
Ele era conhecido por usar modelos como “pincéis” para suas telas.
“Às vezes tenho a nítida sensação de ser duas pessoas, mas ao meditar e
me observar com distanciamento, aprendi como elas operam e quando tirar
proveito de cada uma.”
Costanza Pascolato
Confira muito mais na exposição sobre a vida de Costanza Pascolato!
Entre os dias 12 e 29 de julho no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro.
Já tive o grande prazer de encontrá-la pessoalmente, numa convenção para licenciados da Le Lis Blanc, em 2003, em São Paulo. Ela, muito simpática e educada, posou para fotos com suas muitas admiradoras, entre as quais me incluo.
Costanza e eu numa convenção da Le Lis Blanc, 2003, SP
"Alguém já disse que saudade não é quando a gente sente falta de alguém,
mas quando sente a sua presença", disse Marisa Monte ao fazer uma
sincera homenagem à Cassia Eller, na estreia de seu novo show, na última
quinta-feira em São Paulo.
Pois bem: por quase duas horas, ali mesmo no palco, a cantora fez então
com que sua plateia sentisse muita saudade dela, na noite que anunciava
com chuva e vento o inverno na cidade.
Que prazer ser aquecido por sua voz. Em menos de cinco minutos ali,
Marisa mostrou mais uma vez que sua missão ao se apresentar ao vivo
ultrapassa a simples reprodução de faixas de um disco de lançamento.
O que ela quer (e consegue) é elevar o patamar de um espetáculo,
oferecer uma outra maneira de as pessoas (por uma sinestesia espontânea)
verem e ouvirem suas canções, transformar um show em experiência
elevada.
Joel Silva/Folhapress
A cantora Marisa Monte na estreia do show
Olhando só a ficha técnica do show "Verdade uma Ilusão", um olhar mais
cínico pode até achar a proposta arrogante para uma turnê que quer ser
popular: convidar artistas plásticos para compor um visual para cada
música?
Mas quando as imagens começam a se envolver com a música, quando olhos e
ouvidos já conversam confortavelmente, e você nem pensa em pedir
resgate pelo sequestro de seus sentidos, qualquer ideia de pretensão se
desfaz.
Marisa Monte consegue isso antes mesmo de terminar a segunda música, "O que Você Quer Saber de Verdade".
Orquestrado pelo diretor de arte Batman Zavarese, o visual do show é
irresistível --e quando, pela criação de Cao Guimarães e Rivane
Neuenschwander, uma imensa bolha de sabão desafia a atmosfera ao longo
de "Ilusión" (um clássico desde a parceria com Julieta Venegas), sons e
formas, na sua cabeça, são de fato uma coisa só, como se assim tivessem
nascido e existido para sempre.
Difícil falar qual desses casamentos é o mais acertado. Os "4.000
Disparos" de Jonathas Andrade para "Não Vá Embora"? Os "Manuscritos" de
Mana Bernardes para "E.C.T." (quando Marisa faz então seu tributo à
Cássia)? O "Dream Sequence I" de Janaína Tschäpe em "Depois"?
Eu fico, talvez, com a estupenda imagem de duas pequenas árvores à
deriva num barquinho, em "Ainda Bem", de Thiago Rocha Pitta. Por que
"talvez"?
Porque não tenho muita certeza do que senti na noite de quinta. Marisa
--acompanhada por músicos selecionados a dedo da Nação Zumbi, além de um
superior quarteto de cordas-- mais uma vez confunde nossas emoções.
Os felizes no amor querem se sentir abandonados --apenas para cantar
"Depois". Os corações solitários desejam estar com alguém para "Ainda
Bem" virar verdade. E eu mesmo, que um dia escrevi, aqui mesmo nesta
"Ilustrada", lá no idos dos anos 90, que queria "morar no país que
Marisa Monte canta", já não estou mais seguro de onde desejo realmente
viver. Mas sei que é desse lugar, de onde sai sua voz e seu brilho, que
eu quero sempre sentir saudade.
ZECA CAMARGO é jornalista e apresentador do "Fantástico" (TV Globo)
"VERDADE UMA ILUSÃO" QUANDO: em temporada até 15/7, no HSBC Brasil QUANTO: de R$ 120 a R$ 320 CLASSIFICAÇÃO: 14 anos AVALIAÇÃO: ótimo
Nota da AB:
Já tive o prazer de assistir a dois shows de Marisa Monte. Um no início de sua carreira, em Natal, no Centro de Convenções, e outro no Rio de Janeiro, no que hoje é chamado Citibank Hall (a casa de espetáculos já mudou de nome várias vezes). Ambos maravilhosos. Gostaria muito de poder ver o novo show. Por enquanto a agenda oficial só prevê shows em SP e RJ.
"Eu sou pequeno perto de Jobim", diz Henri Salvador ; confira entrevista
LENEIDE DUARTE-PLONColaboração para a Folha, em Paris 16/03/2007
Henri
Salvador, 89, foi anunciado neste ano em um especial de TV sobre um
século da canção francesa como o "inventor da bossa nova brasileira". No
palco, disse que sua música "Dans Mon Île" (Na Minha Ilha) "inspirou
Tom Jobim a criar a bossa nova" e cantou "Eu Sei que Vou te Amar", de
Tom e Vinicius, em versão francesa de Georges Moustaki. Ninguém informou
que a canção nem é francesa.
Meses atrás, o jornal "Le Monde"
questionava: "Henri Salvador foi, como ele diz, o inventor da bossa nova
com a canção 'Dans Mon Île'?". Num programa de rádio, atribuiu-se a
ele a criação da bossa nova. Não é de admirar que na Wikipédia
(enciclopédia virtual em que qualquer pessoa pode escrever) a informação
persista. Ainda que no condicional.
Seu amigo Moustaki, que traduziu "Águas de Março" para o francês, com Tom Jobim, diz à Folha: "Acho que Salvador acredita sinceramente nisso, mas não estou de acordo".
Ao lançar o disco "Révérence", gravado no Rio, Salvador recebe a Folha
em seu apartamento na Place Vendôme, em Paris. Estende a mão e pergunta
"Como vai você?" para mostrar que ainda fala a língua que aprendeu no
Brasil, em 1940. Mas dá a entrevista em francês, reclamando do cansaço
da batalha contra um vírus, que o levou ao hospital. O bom humor volta
ao falar do Brasil.
Salvador ri de maneira escancarada. Suas
gargalhadas ecoam no apartamento. Na entrevista, o velho "crooner"
fascinado por músicos brasileiros demonstra espanto ao saber que a
batida da bossa nova foi criada pelo violão de João Gilberto ("Verdade?
Não sabia.") e diz que é "exagero" chamá-lo de "inventor" do gênero.
Confira a seguir a íntegra da entrevista:
Folha - Por que você gravou o disco "Révérence" no Rio?
Henri Salvador
- Gravei no Brasil por causa de Morelembaum. Fui ver Caetano Veloso em
Paris, e Morelembaum tocava com ele. Quando ouvi os arranjos, disse a
mim mesmo: é esse cara que vai fazer meu próximo disco. Fui vê-lo depois
no "New Morning" em Paris e lhe pedi que fizesse os arranjos. Ele
disse, "Salvador, com muito prazer, eu conheço você". Para facilitar, eu
lhe disse que eu poderia ir gravar no Brasil, assim ele poderia
trabalhar em português com os músicos. Ele ficou encantado. Os músicos
eram do grupo de Jobim.
Folha - Em que você pensou quando escolheu o título?
Henri Salvador- É a última vez que vou me apresentar em público no palco. Sou um velho. Então, faço a reverência e saio.
Folha - Você começou uma turnê que vai incluir show em Monte Carlo, onde festeja seus 90 anos. Aposentadoria nem pensar?
Henri Salvador
- Faço primeiro Monte Carlo, depois a Salle Pleyel e depois o Palais
des Congrès. Termino a minha despedida na Ópera de Paris. Detesto a
palavra aposentadoria, "retraite" em francês, que quer dizer se retirar.
É uma abdicação.
Folha - Então você não se aposenta completamente.
Henri Salvador
- Não deixo de gravar meus discos, mas paro de me apresentar ao vivo
porque é cansativo e não quero dar a imagem de um velho no palco. Será a
última vez que vão me ver no palco. Sou um homem idoso.
Folha - Que compositores brasileiros você canta no disco?
Henri Salvador
- Há apenas uma canção de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes,
"Eu Sei que Vou te Amar", na versão de Georges Moustaki. As outras são
minhas.
Folha - Você disse à imprensa brasileira: "O
Brasil está ligado à minha vida e tem a melhor música do mundo". Qual
sua relação com a música brasileira?
Henri Salvador
- Para mim, é a melhor música não somente porque tem muitos talentos
mas porque eles são vanguardistas, se arriscam musicalmente e
harmonicamente. Jobim foi muito, muito longe e a maior parte dos
compositores são surpreendentes, fazem grandes achados musicais. O
maior, porque é o maior, eu o chamo de Deus, é Jobim. Ele é sempre
surpreendente. É pura pesquisa musical.
Folha - Qual a importância que a música brasileira teve em sua carreira?
Henri Salvador - Foi muito importante. Para compor, por exemplo. Componho mais facilmente no ritmo da bossa nova, ele inspira melodias.
Folha - E qual a importância do jazz na sua vida?
Henri Salvador
- O jazz foi importante no início. Eu admirava os grandes como Count
Basie e Duke Ellington. Havia um compositor americano que eu adorava,
Cole Porter. Para mim, era um melodista maravilhoso. O jazz foi muito
importante no início, depois mergulhei na música brasileira, que é
inovadora. No Brasil, há sempre alguém que chega e faz coisas novas. É
um país muito rico. E existem músicos que se aproximam de Chopin. Tem um
pianista que me deixou abismado num disco.
Folha - Quem é?
Henri Salvador - Não lembro o nome dele.
Folha - Que cantores marcaram seu estilo, suas interpretações?
Henri Salvador
- Minhas composições são uma mistura de tudo, de jazz, de bossa nova e
da canção francesa também. Meu ídolo no "music hall" era Maurice
Chevalier. Ele pegava uma canção sem importância e fazia uma obra-prima.
Tecnicamente, eu me inspirei em Frank Sinatra e Nat King Cole para a
respiração, a dicção e a escolha das canções. Eles estavam na vanguarda.
Foram os melhores cantores dos melhores compositores, com as melhores
orquestras. Sinatra dizia que, quando se canta, é melhor cantar uma
canção boa que uma ruim; uma canção ruim é ruim para toda a eternidade.
Folha
- No especial de televisão para lembrar cem anos de canção francesa,
você só cantou uma música, e foi "Eu Sei que Vou te Amar", de Tom Jobim e
Vinicius de Moraes, em versão de Georges Moustaki. Por que você
escolheu esta canção num especial sobre a canção francesa?
Henri Salvador
- Foi uma feliz coincidência. Quando eu fui ao Brasil, descobri essa
canção, que eu não conhecia. Perguntei a Moustaki e ele me disse que ela
é um enorme sucesso no Brasil. É uma bela composição que tem uma
lógica musical muito linda.
Folha - E foi você quem a escolheu para a festa da canção francesa?
Henri Salvador
- Sim. Eu escutei um disco de Jobim maravilhoso, super de vanguarda,
com uma grande orquestra, quase sinfônico, formidável. Mas eu não sabia
que ele tinha ido tão longe. Era realmente um maravilhoso compositor,
lamento não tê-lo conhecido. Eu moro perto do Olympia e eles vieram
aqui, Jobim, Vinicius e um grupo. E eu não pude ir.
Folha - Você não conheceu Tom nem Vinicius?
Henri Salvador - Não.
Folha - Mas você conhece João Gilberto?
Henri Salvador - Sim, fui vê-lo em Paris.
Folha - Você conhece também Caetano Veloso, que canta "Dans Mon Île" sempre que vem a Paris.
Henri Salvador - Sim, foi ele quem quis a canção "Eu Sei que Vou te Amar" no meu novo disco.
Folha
- Numa longa matéria sobre a bossa nova, "Bossa nova, une passion
française", o "Le Monde" escreveu: "Henri Salvador foi, como ele diz, o
inventor da bossa nova com sua canção 'Dans Mon Île'? Tom Jobim teria
tido a idéia de desacelerar o 'tempo' do samba depois de ter visto o
filme italiano para o qual foi composto este bolero". O que você pensa
dessa história e como você explica a batida da guitarra de João Gilberto
e a harmonia ultra-sofisticada da bossa-nova, que Tom Jobim atribuía a
uma mistura do samba-canção com o jazz?
Henri Salvador
- Foi um grande músico brasileiro, cujo nome não lembro, quem me disse:
"Você sabe que você está na origem da bossa nova?" Eu disse: "Não é
possível". Ele me disse: "O Tom Jobim ouviu sua música 'Dans Mon Île'
num filme italiano e disse: "É isso que tenho que fazer, desacelerar o
tempo do samba".
Folha - Não seria um exagero dizer que você é o "inventor" da bossa nova?
Henri Salvador - Não sou o inventor. Foi Jobim quem inventou a bossa nova.
Folha
- No início, foi João Gilberto quem inventou a batida do violão e uma
nova maneira de cantar que foi batizada de bossa nova. Ele gravou um
disco com Elizeth Cardoso e Tom Jobim, no qual tocava violão em duas
faixas, de maneira totalmente nova.
Henri Salvador - Verdade? Não sabia.
Folha - A imprensa francesa repete muito essa história que atribui a você a invenção da bossa nova. Isso o incomoda?
Henri Salvador
- Eles estão errados. Não posso me atribuir esse fato, não fui eu. Não
gosto que digam que sou o inventor da bossa nova. Não sou capaz, sou
apenas um pequeno compositor comparado a Jobim. É um exagero, sou um
pequeno melodista da canção francesa. Jobim é um gigante. Fiquei
contente quando fui ao Brasil no ano passado, ao ver que o aeroporto do
Rio se chama Jobim. Nunca isso aconteceria na França... Mas tive um
choque ao ouvir um saxofonista que tocava mas era uma ... merda. O
aeroporto se chama Jobim e não se põe alguém que saiba tocar bem para
executar as belas músicas de Jobim. Isso me deixou triste.
Folha - Você vai fazer uma turnê no Brasil para promover o disco?
Henri Salvador
- Vamos fazer. Morelembaum quer que eu faça com ele. Mas sou uma coisa
velha. Mas o público brasileiro é muito caloroso. Preciso preparar
algumas frases em português engraçadas.
Folha - Você foi
ao Brasil pela primeira vez em 1940 para cantar com a orquestra de Ray
Ventura. Quais suas lembranças dessa época?
Henri Salvador
- Eu andei por todo lado, Minas Gerais, Salvador. Cantei no Cassino da
Urca, no Quitandinha, em Niterói. Mas o que me agrada no Brasil... É
tudo. Os brasileiros são calorosos, recebem bem e amam o francês. Eles
adoram a França, isso me surpreendeu. Todo mundo fazia um esforço para
dizer algumas palavras em francês. Eu me dou bem com o Brasil porque sou
da Guyana e por isso me sinto muito próximo. Há muito calor humano.
Vejam também "Eu sei que vou te amar" com Henri Salvador.
Atualização: foi lançado um disco póstumo agora em junho/2012, na França.